Escrita Coletiva – O século é o contexto

Por Fernanda Pompeu em Escrever na internet

Escrita Coletiva é um exercício de escrita plural.
Dentro do tema proposto, do tamanho proposto, cada uma e cada um faz seu texto.
Enfim, chegamos a um coral de cenas. Dá para sentir que foi um prazer escrever e agora será uma prazer ler.
Optei por respeitar a ordem das postagens no Facebook. Da primeira à última.
E muito obrigada pela participação de amigas e amigos da minha rede!
Apreciem

Proposta:
1 Escolha um século qualquer.
2 Escreva uma cena (de um parágrafo) ambientada no século escolhido.

Século 20, início. Quando menina, minha avó Afonsina não perdia, por nada no mundo, o momento em que o homem, usando uma vara comprida, acendia os lampiões de gás na sua rua. Fortaleza e o rosto da menina se iluminavam. Fernanda Pompeu

Século 20. Eu bebê, ainda não sabia falar, dentro do berço, em pé, com muito medo de um cavalo preto de porcelana, de enfeite, queria me comunicar com mamãe não tinha como, estiquei o bracinho e de tanto tentar derrubei o cavalinho, fiquei feliz ao vê-lo despedaçado. Mamãe me contou, mas lembro nitidamente e o medo acabou. Yara Corso

Século 20, 1977. Eu, bem garoto, fazia carreto na feira livre do bairro em que morava, ganhava uns trocados, era pouco, mas bem que ajudava nas despesas de casa, ainda me lembro do meu carro, uma caixa grande de madeira, pintada de azul anil, com rodas de rolimã. Carlos Silveira

Século 20. Olha só o que faz a internet…. eu sou Maria, o grande amor de Rodolfo. Andei rodando mundo até encontrá-lo sentado num banco de jardim em um domingo ensolarado. Me fiz conhecer e ele me olhando fixamente disse: “Senti sua falta e não vi o grande tesouro que estava ao meu lado.” Olhou como se não visse nada, levantou-se e, sem ao menos se despedir, foi-se embora sem olhar para trás… Ana Lucia Goncalves Chiaradia Abud

Século 19. Madalena, no frescor dos seus 19 anos, corre pela ilha, dança e faz girar seu vestido longo e rodado, cheio de sianinhas e rendas. Sente o cheiro da maresia, solta seus cabelos cor de fogo, e num rompante se joga ao mar, como se aquele banho pudesse tirar as impurezas da sua alma. Tânia Morais

Século 20, anos 1950. O caminhão pipa molhando a avenida da República, Lisboa. E eu amava o cheiro que subia do canteiro central. Maria Olivia da Silva

Século 21, meia-noite. Em casa, sentada na frente do computador, uso branco. Ouço fogos, dou um gole no espumante enquanto espero o bug do milênio. Bebeti Do Amaral Gurgel

500 a.C. As deusas Afrodite, Hera e outra, que não sei mais quem é, queriam saber quem era a mais linda. Zeus, não querendo decidir, contratou Paris para decidir a questão. Todas as três ofereceram poder, fama e sabedoria. Afrodite ofereceu a mulher mais linda do universo, na época a Helena, já casada com o rei Agamenon. Helena foi então sequestrada com ajuda de Afrodite. Dessa forma, o rei para se vingar declarou guerra ao Paris, príncipe de Troia. 10 anos guerreando, a Grécia manda o presente para o reino de Troia, destruindo a cidade. Motivo banal, mas a história é assim mais ou menos contada para a eternidade. Darya Goerisch

Século 20. Aprendendo a montar a cavalo com meu pai. Tuca Ferreira

Século 30000 a.C. Urgh vê o mamute e sinaliza para Brum dirigir, silenciosamente, sua horda de forma a cercar a caça. Quando todos se colocam a postos, Grunf aparece com seu bando, munidos de tochas, assustando o animal e fazendo-o recuar em direção à grota. O mamute se vê cercado. O grupo de Urgh, então, avança com as lanças e mata o enorme paquiderme. Dia de festa. Carne, couro e pele para todos. Ls Raghy

Século 20. Uma tarefa escolar da quinta série foi ler um texto e escrever a respeito. Escrevi um poema inspirado no texto. Dona Elza, minha professora, gostou tanto que me pediu para lê-lo para a classe, em pé e ao seu lado. Inesquecível! Siumara Martins

Século 16. Os indígenas não entendiam a máquina mercante. Descarregavam panos, doenças e negros nas praias pertencentes aos deuses. Os anciãos anunciavam vinganças porque as águas intocáveis tinham sido profanadas. Desesperados e com a aparência de terem perdido as suas almas, as correntes assinalavam o ritmo lento e trágico do caminho da escravidão que os donos da terra tinham se recusado a aceitar. Somente aqueles deportados, sem esperança de retorno, podiam enfrentar um destino tão cruel. Mas outros tempos viriam, e os degredados e relegados aos trabalhos forçados redescobririam, entre chicotadas e estupros, que a alma nunca sai do corpo. E a esperança nunca sai da alma. Gislaine Marins

Século 20, 1964/68. Interior de SP, família de descendentes italianos, cujas casas tinham grandes quintais onde se criavam animais para o Natal e as festas de fim de ano. Galinhas para produção de ovos, horta. No quintal dos nonos tinha um jardim de ervas medicinais. Urtiga ardia a mão, mas era uma aventura misteriosa. Losna era muito amarga, mas minha tia Giustina sempre fazia chá dizendo que era muito bom para o estômago. Minha nona fazia chá de Pariparoba para resfriado. Esses nomes todos sempre ficaram na minha cabeça. E para não me alongar demais, porque estou adorando lembrar de tudo isso, termino com o meu pé de Manacá de Cheiro, que eu amava, onde as cigarras se alojavam, o cheiro do manacá e as florezinhas roxas e brancas, ele era meu amigo. Tudo isso fazia parte da minha infância. Que saudades! Denise De Bosc

Século 20, 1900. Nascia minha avó no dia primeiro de janeiro. Então sempre fez aniversário com o século. 1901 um ano, assim por diante até findar em 1968. Foi embora com sessenta e oito anos, findou seu tempo… Belkiss Nogueira

Século 20, final. Estamos, meu marido e eu, a caminho de uma festa. Peço a ele pra parar numa padaria, pois precisava comprar cigarros. A fila, na padaria, estava grande, mas me mantive nela. Fiz minha compra e voltei para o carro, reclamando da demora, quando percebi que o meu marido se mantinha muito calado. Meu susto foi enorme, quando constatei que entrei no carro errado… Bazinha Souza

Século 16. A duquesa de Mantua decide contratar um trabalho. Um novo dístico: nec spe, nec metu. Não podia antever que cinco séculos passariam para que a esperança fosse negada, mas o medo permaneceria. Malu Heilborn

Século 20,1939. Pierina, com o menino menor enganchado nos panos e o Fabrizio chutando a água do laguinho – me tira os pé da água que tá c’o sapato de missa! – espiava entre os prédios, os olhos se apertando pra divisar, entre os homens que iam e vinham apressados na cidade, o seu Vittorio. Ele ia só ver com quanto fubá se faz uma polenta! Pai de quatro filhos metido co’s comunista, os anarquista, vai saber que diabo é aquela gente. Se escondendo, se encontrando com ela nas praça como se ela não fosse mulher casada, mas uma civetta dessas que pinta os cabelo. Mas agora tinha acabado. Ele que mandasse um dinheirinho pros menino, ela ia voltar pra fábrica de fogão e la nave va. Pronto, fim, não ia mais ser viúva de marido vivo. O braço de Vittorio veio por trás e envolveu o peito de Pierina como um agasalho macio. Braço firme, forte, que a puxou suavemente pra junto do peito grande e de imediato aqueceu as costas dela com um calor familiar e amigo. Ela fechou os olhos, se aconchegou e murmurou quase pra si mesma: disgracciatto! Jackie Vellego

Século 21. Sonhos que podem ser sonhados juntos. É uma quimera? Mas, o que significa quimera? É sonho que se sonha só? Resultado da imaginação? Experiências particulares cabem no universal? A subjetividade, o enlace com os elementos psíquicos e as experiências sensoriais conduzem ao mundo dos sentidos e significados com manifestações de afetos. Maria Vilani Madeiro

Século 22. Quando tudo isto aqui tiver acabado (frase boa para correções). Fernanda Brankovic

Século 21. Olhe para mim!!! Não desvie a vista, sou eu, eu, estúpido!!! Ah, está envergonhado, é isso? Faz bem, mas não resolve nada, seu bostinha. Agora ele já sabe de tudo, nós estamos perdidos. Você tinha que sair falando por si, não tinha? Tinha que ir pro bar encontrar seus amigos desempregados, não tinha? E vomitar? Não é? Não é, seu… seu… uh!! Que raiva que tenho, como é que fui dar esse mole prum trouxa como você? 2021, pandemia, e eu marcando assim. Antonio Geremias

Século 3 aC. Visto minha toga (sinal de minha insubmissão atemporal) e me dirijo até a Biblioteca de Alexandria com o intuito de pesquisar uma importante obra de astronomia… Será que conseguirei entrar? Rosa Cris Dias

Século 20, 1970. Zona rural, interior de São Paulo, no sítio não existia energia elétrica. A casa era iluminada com um bico de luz gerado por um usina doméstica,
movida pela água. O jovem Orlando e seus irmãos ficaram sabendo que o vizinho tinha comprado uma TV. Eles, encantados com aquele equipamento, saíam todas as noites, caminhavam 4 km para ir e mais 4 para retornar, só para ter o prazer de ver na telinha a novela Irmãos Coragem. Adriana Rafael

Século 20, 1979. Seu Joaquim, sua amada Aurora, eu e meus irmãos vivemos nosso êxodo rural. Nosso sítio era nosso quintal, tinha cores, sabores. Tinha melado de cana, céu estrelado, pique-esconde, e a doce sensação que nunca seria diferente! Julieta Castro

Século 19. Sentado em sua escrivaninha, o conde escreve cartas. As chamas das velas a seu lado tremulam e fazem sombras bruxuleantes nas paredes do requintado escritório. Já passa muito da meia-noite. Todos os criados já estão dormindo. Ana, no andar de cima, também dorme. O conde está escrevendo cartas importantes. Busca um noivo para sua filha. Afinal no ano de 1889 uma jovem de 19 anos já deveria estar pelo menos noiva e isso não acontece com Ana. Ivana Lopes

Século 20, início. Machado e eu nos encontramos na rua do Catete. Ele andava cabisbaixo, Carolina havia morrido há pouco. Respeitei sua dor, não lhe perguntei nada sobre Virgínia. Tampouco a respeito de Lívia. Tive vontade, mas me contive. Pensei ainda em Marcela, Sofia, Capitolina, Helena e Iaiá Garcia. Lembrei-me do querido Aires. Calei-me. Cumprimentei-o com brevidade e segui. Suponho que não me reconheceu, pobre de mim. Seguimos. Ele para lá, eu para cá. Era junho de 1905. Nunca mais o vi vivo, que pena. Anaelena Lima

Século 20, 20 de julho de 1969. Era um domingo. Tarde da noite, televisão preto e branco, imagem com chuviscos, todos na sala. Com dificuldades, vimos o módulo Eagle da Apolo 11 descer na lua. Algum tempo depois, o primeiro homem pisou o solo lunar. Muitos não acreditaram. Achavam que era uma encenação dos americanos. Lá em casa, acreditamos. Armstrong e Aldrin eram nomes desconhecidos. Não eram pronunciados. O que importava e assombrava era o homem na lua. Antonio Pimentel

Século 21. Em lágrimas, aquela jovem, que ainda ontem tinha sonhos de futuro e de amor, acompanhou o policial. Sentada há horas no duro banco da delegacia, ao lado da
parteira, ainda sentindo dores e sangrando, tentava entender o acontecido. Seu grande amor, o homem da sua vida, que dia antes a levara a uma clínica de aborto,onde a deixara sozinha, recusara-se a atender sua ligação. “Não quero me envolver nessa sujeira de denúncia de aborto”, disse ele. “Você quer prejudicar meu trabalho?” Vera Vaccari

Século 20, anos 1960. Início de uma noite quente, numa pequena cidade do interior paulista. Uma casa térrea, com uma janela enorme na sala, com um sofá acomodando toda a família, me percebo, no alto dos meus 6 anos, assistindo deslumbrada as imagens que saiam daquela caixa chamada televisão. Começa os Reis do Ringue e junto com a empolgação da família, com as maravilhosas acrobacias do Ted Boy Marino, vem os gritos de incentivo dos televizinhos disputando um lugar na calçada para ver a magia das imagens. Essa janela sempre permaneceu aberta até em dias frios… Inmaculada Rodriguez

Século 21, 2021. Foi assim. O dia, sete de maio, no calendário da época. Veio o meteoro HK 345 N e bateu de frente. E foi o fim. Clelia Ramos

Século 20. Depois de vinte e poucos anos de ditadura, saíamos às ruas em Campinas, acreditando num país melhor, democrático e inclusivo. Ares novos e estrelas-guias nos faziam crer que poderia haver uma nova história nesses tristes trópicos. Éramos jovens, trazíamos uma esperança coletiva e tínhamos líderes interessantes. Myrian Naime

Século 21. Ela desce a ladeira que vai dar onde as barcas paradas esperam para levar pessoas e tudo o mais até Alcântara – uma ilha habitável e histórica de São Luís do Maranhão. Na volta, o Por do Sol explode no seu coração. Daí ela percebe que não ama mais aquele homem. Marcia Aparecida Silva Penteado

Século 21. Ela sonha… saudades! Saudades de bater perna em Sampa. Passear pela Sé. Tomar um mate caprichado com pão de queijo no Rei do Mate. Entrar no CCBB pra ver uma exposição qualquer, mudar o curso e entrar na Rua Direita pra olhar vitrine. Dar passadinha na Liberdade e levar sushi prontinho pra comer em casa. Respirar o ar da liberdade sem medo, cabelo ao vento, celular atento. E ao voltar pra casa cansada, depois de um dia tão bom, sorrir para o cenário glorioso da janela do apê: ela está feliz. Cidinha Morelli

Século 20, 1937. Ele recém-chegava de uma missão pelo continente africano, levantando informações estatísticas para o governo do Brasil sobre aquilo que achava uma das piores tecnologias do mundo: o imperialismo. Mesmo assim, o fazia. Naquele ano, bombardearam Guernica. Naquele ano, acompanhou dois meses do trabalho do hispaniense Ejército de África, no Marrocos. Ainda nos 37 anos do século XX, decidiu pedir transferência para o novíssimo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Cansara da guerra e da miséria. Melhor era visitar as cidades do ouro nas Minas, dar termos aos santos barrocos e ver erguerem a arquitetura modernista. De fome e privilégios, lhe bastava o Brasil. Luciano Chinda Doarte

Século 21. A jovem e linda repórter viajou a Jerusalém a serviço de um canal de televisão. Diante da câmera, em plena Via Dolorosa, compartilhou com o mundo inteiro sua profunda emoção por estar em local sagrado. Em reportagem ao vivo, mal contendo as lágrimas, confessou que não conseguia acreditar que estava, em pleno século 21, pisando o mesmo chão que Mel Gibson tinha pisado. Mário Sérgio Baggio

Século 21/20, 2021–1946. Uma senhora de cabelos brancos abriu um caderno de lembranças, algumas fotos antigas e uma ou outra carta, e nos conduziu no túnel do tempo para uma época na qual ela era um arco-íris. Deixou-me com a sensação de estar olhando a vida pelo lado de fora. Causou-me uma agitação, tradução do medo de me perder e ser incapaz de tornar a olhar a vida pelo lado de dentro. Catarina Aversa

Com esse texto já postado, recebo a triste notícia da morte da amiga Marisa Paifer. Ela participou de várias Escritas Coletivas Acelera Texto. Fica aqui o registro. Vá em paz, querida Marisa.

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2 respostas para “Escrita Coletiva – O século é o contexto”

  1. Amei muito bom ter participado.

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